Regina Mitra - Hipnose e Psicologia Clínica 
Reflexões
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(Foto 2/3)

  “O  LAÇO E O ABRAÇO”


Mário Quintana 


Meu Deus! Como é engraçado!


Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço. É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço. E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando... devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.


Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.


E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.


Ah! Então, é assim o amor, a amizade.


Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita. Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas bandas do laço. Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade. 


E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços. E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço. Então o amor e a amizade são isso...


Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.


Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!


  


“O  Silêncio”


Este é o meu momento, de uma forma em que eu me calo, estou em silêncio comigo e nada mais, no entanto os meus pensamentos não conseguem se calar, minha mente não pára, está sempre a maquinar, engenhando, arquitetando, criando, cantando, amando, lembrando, sentindo cheiro, dor, saudade…. Ela está sempre activa.


   Se neste momento estou em silêncio só comigo, estou em silêncio com o som da minha voz, o silêncio sou só eu, nada mais, e nada procuro, somente deixo fluir, deixo-me ir, ouvir tudo e todos, o silêncio agora sou só eu. Sem regras nem gramática, é o meu tempo, meu amigo íntimo e fiel.


   Neste meu tempo eu não me isolo, somente uso dele para organizar meus pensamentos, dar lugar para situações agradáveis, sonhar, ir para os lugares que eu quero estar e estar bem. Tiro partido dos melhores momentos de minha vida, e adquirir mais confiança em mim mesmo.


   Sinto que nesses momentos enriqueço-me de sabedoria e energia, é um silêncio livre de angústia e solidão, pois são simplesmente momentos necessários onde me encontro e consigo ir de encontro às multidões.


   Este meu silêncio é um encontro comigo mesmo, não causa dor nem sofrimento, é um silêncio sem desgosto ou escândalo, não é uma arma de ataque muito menos de vingança, e nem mesmo um percurso para a eternidade. É simplesmente um encontro na busca de conhecimentos onde o silêncio vem em primeiro lugar, depois o caminho de ouvir, logo a seguir vou relembrar para colocar em prática e por fim, passar meus ensinamentos aos outros.


   Consigo descansar da minha voz e daqueles sons que posso produzir com meus movimentos, deixo-me levar no aconchego e no espaço que me envolve, deixo somente os ruidos externos me cercarem e somente entrar cá dentro se eu quiser, ignorando-os por vezes ou até mesmo me utilizando deles para reforçar estímulos.


   Este momento torna-se um meio de liberdade e não de solidão, e os pensamentos trabalham melhor com a sensação do segredo, da privacidade, produzindo efeito duradouro e sólido.


   Mas no silêncio também se pode mentir e guardar em segredo, fingir que nada se passou, desabafar, no nosso silêncio podemos tudo. Mas no mesmo silêncio, depois do desabafo, sugerimos ficar bem, desejamos viver em paz e proporcionar o bem-estar.


 


"Monólogo das Mãos" 


                                                                                                                                                                         De Ghiaroni

Para que servem as mãos? 
  As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, 
  ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, 
  confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, 
  acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, 
  reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever...

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, 
  salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário; 
  Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena; 
  foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; 
  com as mãos David agitou a funda que matou Golias; 
  as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena; 

Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; 
  os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte! 

Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram. 
  A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; 
  o operário construir e o burguês destruir; 
  o bom amparar e o justo punir; 
  o amante acariciar e o ladrão roubar; 
  o honesto trabalhar e o viciado jogar. 

Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! 
  Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia! 
  As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva. 
  Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor. 
  Os olhos dos cegos são as mãos. 
  As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; 
  no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros. 

O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; 
  a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas. 

A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; 
  fechada e levantada mostra a força e o poder; 
  empunha a espada a pena e a cruz! 

Modela os mármores e os bronzes; 
  da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza. Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos. 

O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade. 
  O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; 

Jesus abençoava com a s mãos; 
  as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes. 

Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias. 
  E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem. 
  Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino. 
  E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida. 
  E as mãos dos amigos nos conduzem... 
  E as mãos dos coveiros nos enterram!

 


 

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